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Editora: 12min
Todo ano os alunos da rede pública fazem o Saeb, uma prova de português e de matemática aplicada no 2º, 5º e 9º ano do ensino fundamental e no 3º ano do ensino médio. O resultado não vira só uma nota: os estudantes são distribuídos em faixas de aprendizagem, e duas delas são as que aparecem nas manchetes.
"Aprendizagem adequada" é o patamar esperado para a etapa. No fim do ensino médio, em matemática, significa conseguir resolver problemas usando probabilidade, determinar a distância entre dois pontos no plano cartesiano e aplicar corretamente o Teorema de Pitágoras. Na outra ponta está o nível "abaixo do básico": o aluno consegue apenas tarefas simples, como associar um gráfico a dados percentuais apresentados em texto ou em tabela.
É por isso que a diferença entre as duas faixas não é acadêmica. Segundo Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, quem termina a educação básica nesse patamar tem "mais dificuldade de entender um desconto, um parcelamento, de entender os juros que são aplicados em uma dívida que ele pode contrair". É nesse contexto que aparecem os dois levantamentos divulgados recentemente.
O Todos Pela Educação analisou os resultados do Saeb entre 2005 e 2025. O achado central: quase seis em cada dez estudantes da rede pública chegam ao fim do ensino médio abaixo do nível básico em matemática. Na outra ponta, menos de um em cada dez está no nível adequado.
O número que dá tamanho ao problema é o da estagnação. Em 2005, o percentual de alunos com aprendizagem adequada em matemática no fim do médio era de 5,2%. Vinte anos depois, chegou a 8,5%. Em português, no mesmo período, o índice mais que dobrou e alcançou 35,2%.
"O avanço foi muito tímido", avalia Corrêa. "Isso é muito crítico e deve ligar um alerta da sociedade brasileira e do poder público brasileiro."
Nas séries iniciais a história é outra. No 5º ano, a parcela com aprendizagem adequada triplicou em português e mais que triplicou em matemática ao longo de duas décadas: hoje pouco mais de metade das crianças termina essa etapa no nível esperado em matemática. Foi também a única das três etapas em que os resultados de 2025 já superaram os níveis observados antes da pandemia. No 9º ano o avanço existe, mas é menor, e em matemática pouco menos de um em cada cinco alunos chega ao nível adequado.
Há um dado que precisa entrar na leitura. Em 2005, cerca de quatro em cada dez jovens concluíam o ensino médio até os 19 anos; em 2025, são aproximadamente sete em cada dez. O grupo avaliado hoje é muito maior e mais diverso do que era há vinte anos.
A explicação mais repetida é de que "nem todo mundo tem jeito para as contas". Não é o que o estudo aponta. A neurociência mostra que o cérebro tem plasticidade e que a habilidade matemática não é característica fixa, determinada de antemão: existem diferentes trajetórias, experiências e oportunidades de aprender.
Parte do problema está na forma como a disciplina foi apresentada por muito tempo nas escolas, com exigência de memorização e rapidez, muitas vezes sem ensinar o sentido e as aplicações de cálculos, padrões, fórmulas e formas geométricas. Daí a chamada ansiedade matemática, a sensação de que "não sirvo para isso", que faz o aluno evitar a disciplina justamente quando mais precisaria praticá-la.
Há também uma diferença estrutural em relação ao português. Segundo Corrêa, crianças e jovens têm muitas oportunidades de desenvolver leitura, vocabulário e compreensão fora da escola. Já boa parte dos conhecimentos matemáticos mais estruturados depende diretamente de um ensino escolar de qualidade.
E matemática é cumulativa. Quem não aprendeu bem a multiplicação não entende a porcentagem; sem a divisão, fica difícil chegar à equação. A defasagem se acumula de uma série para a outra até o ponto em que o aluno não consegue mais absorver conteúdo novo. Isso aparece nos próprios dados: cerca de metade das crianças termina o 5º ano no nível adequado, e ao fim do 9º ano o índice já caiu para menos de um quinto.
A última razão apontada, que começa a mudar com programas recentes do Ministério da Educação, é que matemática foi menos priorizada nas políticas educacionais do que a alfabetização. E os estudantes que hoje terminam o ensino médio estavam no ensino fundamental quando as escolas fecharam na pandemia. "Os gestores públicos de educação precisam entender que os efeitos da pandemia não terminaram", afirma Corrêa.
A média nacional é um ponto de partida ruim para entender o problema. O maior índice de aprendizagem adequada em matemática no ensino médio é o do Piauí, com pouco mais de 16% dos alunos. São Paulo, o estado mais rico do país, está na média nacional.
O movimento recente não é homogêneo. Entre 2023 e 2025, todos os estados melhoraram o percentual de aprendizagem adequada em matemática no ensino médio, com Piauí e Rio Grande do Sul entre os maiores avanços. Mas quando se olha o grupo abaixo do básico, apenas dez estados conseguiram reduzir esse indicador na disciplina. Paraná, Ceará e Goiás aparecem entre os destaques positivos do levantamento; Rio de Janeiro, Amapá e Roraima reduziram o percentual no nível adequado em português e ao mesmo tempo aumentaram a parcela abaixo do básico nas duas disciplinas.
No Rio de Janeiro, cerca de 70% dos alunos da rede pública terminam o ensino médio sem o básico em matemática, acima da média nacional. "O que chama muita atenção é que o Estado não tem conseguido evoluir na aprendizagem dos estudantes", disse Corrêa. A entidade atribui parte do resultado à falta de um programa efetivo de colaboração do governo estadual com as prefeituras, algo que, segundo ela, caracteriza os estados que mais avançam.
O caso mais extremo aparece em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, última colocada no ranking de aprendizagem nos anos finais do ensino fundamental entre as cidades com mais de 500 mil habitantes e capitais analisadas. No 9º ano, cerca de um quinto dos alunos teve aprendizagem adequada em português e menos de 10% em matemática. A Secretaria Municipal de Educação respondeu que o próprio levantamento mostra avanços entre 2023 e 2025, principalmente nos anos iniciais, e citou ações de recomposição da aprendizagem, formação continuada, reforço escolar e correção de fluxo.
Nas escolas, professores apontam condições de trabalho. Matheus Pacheco, da rede municipal de Nova Iguaçu, disse à TV Globo que os alunos não têm kit escolar, lápis nem caderno, e que falta tempo para planejar as aulas. "A gente se sente muito desvalorizado."
Poucas semanas depois, os resultados do Pisa 2025 chegaram à mesma conclusão por outro caminho. O Pisa é a avaliação internacional aplicada a cada três anos pela OCDE a estudantes de 15 anos; nesta edição participaram 91 países e economias, e no Brasil o teste foi feito por pouco mais de 30 mil alunos em mais de mil escolas.
O relatório classifica o desempenho brasileiro como estável desde 2015, num patamar baixo. E matemática é a pior área do país, com a mesma pontuação obtida uma década antes. A distância em relação à média da OCDE é de 92 pontos, a maior entre as áreas avaliadas.
O dado que espelha o Saeb é o da proficiência mínima: cerca de três em cada dez alunos brasileiros atingem o nível 2 em matemática, contra quase sete em cada dez nos países da OCDE. Alcançar esse nível significa interpretar uma situação simples matematicamente, como comparar a distância entre duas rotas ou converter preços para outra moeda. Quem fica abaixo tem dificuldade em tarefas básicas do dia a dia, como identificar a relação entre unidades e preços ao fazer compras ou interpretar uma conta de luz.
Ao mesmo tempo, o relatório aponta uma crise global. Nos países mais ricos, a parcela de estudantes com baixo desempenho nas três áreas subiu de 16% para 20% desde a edição anterior, e a OCDE atribui a queda à perda de concentração, ao aumento do tempo de tela e à redução do hábito de leitura. O Brasil aparece no relatório como exemplo de estabilidade e de avanço em equidade ao longo de duas décadas. Mas, como observa o texto da OCDE e mostram os números, a redução da distância em relação aos países ricos se deve mais à queda deles do que à evolução brasileira.
O reflexo natural, quando sai um boletim de educação, é olhar a nota e a posição no ranking. Nos próximos ciclos de Saeb, Ideb e Pisa, o critério mais informativo é outro: se a curva de matemática no ensino médio finalmente sai do lugar.
A referência agora é o novo Plano Nacional de Educação. Ele prevê que, até 2036, não haja estudantes no nível abaixo do básico, e estabelece metas de aprendizagem adequada de pelo menos 90% no 5º ano, 85% no 9º ano e 80% no ensino médio. Comparar essas metas com o ponto de partida atual dá a dimensão do que está sendo prometido, especialmente no ensino médio, onde a curva ficou praticamente parada por vinte anos.
Ao ler o próximo resultado, três coisas ficam mais úteis que a média nacional. A primeira é olhar separadamente as duas faixas: um estado pode aumentar a parcela no nível adequado e, ao mesmo tempo, aumentar a parcela abaixo do básico, como aconteceu recentemente em alguns deles. A segunda é descer do país para o estado, do estado para o município e, quando houver dado, para a rede específica: a média nacional convive com cidades onde menos de um em cada dez alunos do 9º ano sabe o básico em matemática. A terceira é comparar português e matemática na mesma etapa, porque é essa distância que mostra o que depende quase exclusivamente da escola.
E vale a paciência com o calendário. O Saeb é aplicado a cada dois anos e o Pisa a cada três; os primeiros sinais de que a meta de 2036 é real, ou não, aparecerão nos resultados estaduais e municipais dos próximos dois ou três ciclos, não em uma única divulgação.
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